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Arquivo mensal: fevereiro 2012

Unheimlisch ou o estranho familiar

Um ponto de partida

 A palavra é de origem alemã e o conceito é Freudiano, sua acepção refere-se a sentidos opostos: Unheimlisch quer dizer, simultaneamente, conhecido e desconhecido. Algo ao mesmo tempo familiar e estranho. A partir dessa ideia de polarização e estranhamento que os sentidos dessa palavra sugerem é que pensamos a instalação Unheimlisch ou o estranho familiar. Ela é composta por dois ambientes que trazem uma reflexão sobre os movimentos de internalização e externalização do sujeito, neste caso, feita por duas artistas, sujeitas femininas.

O primeiro ambiente, que chamamos de cabana, possui uma camada externa que nos remete a um esqueleto de frágil e precária estrutura, composta de canos de PVC, cimento e pedras. Numa proporção maior do que uma brincadeira infantil, a cabana também não foi estruturada com materiais apropriados. O PVC que deveria ser utilizado em encanamentos de uma sólida construção é aqui a única estrutura, que recebe todo o peso da cabana. Sua visível fragilidade externa é inversamente proporcional ao seu interior. Este possui estrutura complexa, feita com barbantes do teto ao chão que preenchem todo o espaço, sugerindo densidade e provocando sensação de autos-suficiência. Completo em si, parece independente, como se não dependesse da sua frágil estrutura externa.

O segundo trabalho é uma simulação de parte de um quarto. A escrivaninha e o banco sugerem um lugar de um momento individual. Sobre a mesa há um diário. Mas, diferente de um quarto, onde se preserva a intimidade, estes móveis estão dispostos em um ambiente público. O diário que costumeiramente está escondido ou possui certo tipo de zelo para com o outro está aberto definitivamente – a capa engessada impede que seja fechado.

Neste sentido, quando Jacques Lacan afirma que “a presença de um estranho é igual ao de um excesso que impede a consumação da identificação imaginária entre o vidente e o semelhante” (LACAN, 1979 ), o interior da cabana e o diário transformam-se neste estranho, já que estão longe de serem frágil ou particular.

O Processo

O processo deu-se através de nossa imersão no espaço expositivo, que também funciona como ateliê. O mesmo local que serviu para a construção das obras foi também o local de nossas discussões e vivências. Consideramos que o fato de esse lugar não ser um espaço institucional e não ser, necessariamente, mercadológico, contribuiu para a formulação do próprio trabalho. As ações executadas assemelharam-se muito mais a experimentações do que propriamente a um pensamento de curadoria preexistente.

O trabalho não foi definido anteriormente e depois executado. Ele foi se constituindo no próprio espaço, enquanto acontecia. No processo de construção da cabana colocamos nossas subjetividades e questões inconscientes. Para tanto, foi extremamente relevante a utilização de um diário no qual pudéssemos transcrever reflexões acerca dessas sublimações, o que possibilitou uma ligação direta entre as ações de construção da cabana e nossas reflexões a respeito das questões que nós interrogávamos.

O diário foi como um canal entre nossas imaginações e o processo material que estava sendo construído. Embora o diário não dê nenhuma significação à obra, faz parte dela. Nossas sensações, vontades e intenções que se materializaram no ambiente da cabana não estão totalmente refletidas no conteúdo do diário. É como se fossem polos paralelos. “Todo o aspecto de conteúdo em arte se extrai de premissas psicologicamente individuais; ele reflete o jogo das forças psíquicas na alma individual do homem” (BAKHTIN, 2001, p.60 ). Por este ponto de vista poderíamos pensar que a cabana e o diário se dão como investigações particulares. Mas, no momento em que esta investigação abre-se para interferência e interação do público, o trabalho se torna uma contribuição para o outro ao mesmo tempo que contribuiu para nós, artistas.

Assim, essa instalação ainda está em aberto, e convidamos você a construir o trabalho conosco.

Lailana Krinski e Marta Souza

Curitiba, 06 de fevereiro de 2012.


Imagens do diário engessado – que permanece sempre aberto. O diário compõe um dos trabalhos da exposição, no qual se transcreveu e se transcriou o processo vivenciado pelas artistas durante a semana de construção da instalação “cabana”.

 

 

 

 

 

Um poema que está no diário:

 

no silêncio, quase não me ouço.

ações são sistemáticas como uma respiração

corpo e mente num estado flutuante

movimento infinito é circundante em minha vida

tento por para fora e para dentro

o orgasmo nunca chega

agonia e paz
esforço e repouso
desejo e desdém

cada novo instante novas sensações

ideias tomam conta do espaço

o corpo começa a significar ações

complementos, ajustes, refazeres

quero, queria, vou querer.

 

Marta Souza