Lost in Translation

Cor, pintura e espaço são três temas com os quais cultivo um constante envolvimento. O espaço, confesso, aparece um pouco mais timidamente, não apenas nesta exposição, como nas duas exposições anteriores. A verdade é que a discussão do espaço me parece quase sempre girar em torno do objeto. A pintura por outro lado é um berço de questões recorrentes, e aparece, sobretudo, quando a cor é empregada. A exposição LOST IN TRANSLATION, pensada para o Espaço Tardanza, foi desenvolvida mais claramente sobre a égide da pintura, mas traz também uma importante reflexão a partir do objeto. Talvez se aproxime mais dos trabalhos da Série Mergulho, do que dos trabalhos da Série Tentaculados, principalmente porque tanto na Série Mergulho quanto nesta exposição há uma clara intenção de construir um vocabulário pictórico. A diferença crucial é que em LOST IN TRANSLATION há consciência da impossibilidade deste engenho.

Cabe frisar, neste sentido, que o trabalho objeto-borracha foi pensado e concebido a posteriori. As pequenas pinturas não são derivações deste objeto, muito menos da borracha stricto sensu. O que ocorreu foi o exato inverso: a partir das pinturas o objeto-borracha foi deduzido. Portanto, o objeto-borracha funciona como um elo perdido, um achado que, por dedução, tenta explicar cada pintura como um signo a ele relacionado. A partir desse raciocínio cada pintura pode ser um glifo de um sistema de linguagem arcaico, cujo sentido foi perdido para sempre, pois nem mesmo o objeto do qual supostamente deriva toda a sua significância é capaz de lhe restituir algum valor. Reside aí uma metáfora da condição da linguagem da pintura na contemporaneidade.

Por outro lado, se ainda é dado à pintura a possibilidade de ser arte é porque seus meios ainda fazem parte do jogo. A cor certamente é um dos meios de maior importância para a pintura hoje. A sua relatividade e natural ambiguidade, assim como questões culturais adjacentes, fazem da cor um vasto território de pesquisa. Dessas características a cor tira sua a capacidade de maquiar, sua natureza de cosmética aplicada. Potencialmente, a cor pode passar do mero realce para a total dissimulação com imensa facilidade. Com a ajuda da cor, no decorrer da história, a pintura foi capaz de transfigurar uma tela esticada em uma janela, um teto em vislumbre do paraíso. Nesse jogo da cor como cosmética, as pinturas de LOST IN TRANSLATION, assim como objeto-borracha, também encontram algum nexo.

Nesse sentido, não cabe mais uma lógica na qual o objeto-borracha se transfigura em um elo perdido, mas uma lógica em que ele se transfigura em modelo. A relação pinturas/objeto apresenta novamente uma impossibilidade. Se nos seus grandes mitos, a pintura encarna e ganha vida, aqui ela falha em representar, a distância sempre factual entre obra e modelo é desvelada. Nem mesmo o objeto que vemos como borracha é uma borracha. Não se trata de uma borracha em tamanho exageradamente grande. O material é diverso, as dimensões não guardam proporções com o objeto real, nem mesmo as cores permanecem. Se há uma borracha-modelo, ela de fato já se perdeu. O objeto carrega no máximo uma ideia geral do que deve ser uma borracha. A borracha real surge apenas como um fantasma na memória, uma pregnância do nosso costume de ver as coisas de certa maneira. Nesse caso, suponho que a referência da borracha não seja nada mais que um vago contorno dissimulado pela cor.

No fundo, o objeto borracha é tão borracha quanto as pequenas pinturas. Ambos são resultados de uma cosmética aplicada sobre uma superfície. Nesse sentido, no que diz respeito às pinturas ocorre ainda uma outra inversão, pois cada pintura não aparece como representação da borracha. Cada desenho é a própria estrutura da camada de cor aplicada à borracha, só que desdobrada em um plano. Daí que as pinturas são também modelos, tipos de revestimento que carregam características de um projeto de design de superfície, funcionando como imagens passíveis de aplicação sobre um objeto. Não há borracha efetivamente, nem modelo ou pinturas de borracha. Nesse sistema, os elementos simplesmente encenam as coisas. O objeto encena uma borracha e um modelo, as pequenas pinturas encenam um vocabulário e um projeto. No fim, as passagens entre uma pintura e outra, e entre as pinturas e o objeto deixam transparecer uma maquiagem aplicada em série. Não sem a devida ironia.

Bruno Oliveira, agosto de 2013.

 

 

 

 

 

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