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simulacros e lab #3

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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simulacros

 

                                                                                                                                                Joana Corona

Se o pensamento em torno do simulacro, desenvolvido por autores como Baudrillard e Susan Buck-Mors, e também por Walter Benjamin, passava muito pelo surgimento e poder da imagem cinética e da ausência-presença produzida pelas operações do cinema (reprodução e montagem), proponho uma provocação no seguinte sentido: passado também o grande deslumbramento que o cinema produziu no pensamento moderno, o que seria repensar o simulacro passando pela imagem cinética, mais propriamente pela vídeo-arte, mas também por objetos e imagens estáticas capazes de encarnar essa ausência-presença do simulacro?

Segundo Buck-Mors: “A imagem do cinema é o traço cinético gravado de uma ausência. É a imagem presente de um objeto que ou desapareceu, ou talvez nem mesmo tenha existido. Em resumo, é a forma – uma das Ur-formas – do simulacrum. […] O que conta é o simulacro, não o objeto corpóreo por detrás dele. […] Tanto o evento real quanto o encenado estão ausentes. Sua aparência de estar presente é igualmente simulada.”

Um objeto e uma imagem estática (fotografia, gravura, desenho), também são capazes de simular uma presença pela ausência? A qual presença e a qual ausência se refere?

Os trabalhos da exposição simulacros abrangem linguagens e formalizações diversas, e maneiras de simular também distintas. Os vídeos de Fabio Noronha e Simara Ramos, banho e tontura, respectivamente, criam uma ausência não apenas dos corpos ali vistos, que se fazem presentes na realidade fílmica, mas também por outro dado trazido pelos trabalhos: os corpos são como vultos deles próprios, a imagem mesmo nos remete a um corpo que se transforma em movimento, em sombra, em resquício de um corpo que já não está ali. No caso do banho, os corpos se sobrepõem, trazendo o movimento repetitivo de um gesto violento entre homens, no banho, que mais parecem fantasmas; e no vídeo tontura, há uma cabeça que roda e praticamente se desfaz ou faz perder seu foco de referência, enquanto corpo e enquanto sujeito representado, e transforma-se em rastro desse corpo, em vertigem de si, em um rodear-se até perder-se. Esses aspectos de espectros de corpos, trazidos em ambos os vídeos, nos faz sentir ainda mais fortemente a ausência, o simulacro de um corpo que já não é, já não está, ou talvez nunca esteve. Se pensarmos, ainda, no fato de que o vídeo de Fabio é feito a partir de um outro filme preexistente, ou seja, que não houve captação, mas manipulação de uma outra imagem para gerar esse efeito espectral, duplica-se ou reforça-se esse caráter de simulacro e talvez o relacione mais à discussão do cinema trazida por alguns autores, como os citados acima.

As fotografias de Deborah Bruel também oferecem mais ausência do que presença de objetos corpóreos no espaço, o desfoque e o movimento contido nas imagens nos oferecem corpo de cor e resquícios também do que talvez seja uma ou outra coisa, não importa. O que existe é mesmo essa existência fantasmagórica, essa não identificação, esse rastro de matéria-movimento, um registro do que não é, do que talvez tenha sido, transformando a imagem; então, é um não registro de ação alguma, pois que desliga-se da representação para tornar-se o seu duplo desfeito, seu outro que não está. O caráter espectral está presente na ausência produzida por Deborah, assim como nos vídeos.

Mas como pensar o simulacro em relação às outras obras?

Nos termos de Baudrillard, o código sobrepõe-se e domina o significado: “o código não remete mais a qualquer realidade subjetiva ou objetiva, mas à sua própria lógica.”

O trabalho pa_sagem, de C. L. Salvaro, cria simulacro por um caminho outro, o de pensar o próprio dispositivo de arte que ele aciona como objeto de sua experiência, ou seja, pelo acúmulo de materiais descartáveis e a maneira como os reordena no espaço (fixado na parede) e em relação uns aos outros (formando linhas horizontais) pode-se dizer que o pa_sagem simula uma pintura. Isso não significa dizer que é uma pintura, e sim dizer com que tipo de simulacro opera, ou seja, com o simulacro da própria linguagem, de uma técnica por outra. É justamente a ausência da pintura, mas tendo ainda a presença do elemento pictórico, das cores em relação e da composição, o que dá o caráter de simulacro ao trabalho. Algo que se faz passar por outro, indicando um potencial enquanto potencial, assim, este se realiza enquanto um devir.

Como se vê, de Eliane Prolik, provoca um desajuste no olhar – pelo pequeno tamanho do objeto, binóculo, que não possibilita ver simultaneamente com ambos os olhos, gerando um movimento constante de um para o outro olho, de um para outro lugar do olhar. Mas provoca também um desajuste do que se vê, pela ampliação e distorção que a lente causa na imagem, o mesmo procedimento do “olho mágico”, gerando uma espécie de simulacro do real. O binóculo, que aproximaria para se “ver melhor”, neste caso gera um desajuste e incômodo, e a imagem que se forma é um certo simulacro da realidade que se vê a olho nu, ou seja, o objeto já não tem função de fazer ver o real, é a simulação de um binóculo que perde sua função para ser um objeto artístico que cria sua própria imagem deste real, “enganando” o sujeito que vê. O fato de existirem dois objetos, possibilita ainda que se olhe para o outro objeto ou para o outro sujeito que vê, criando uma relação de metaolhar.

Os trabalhos de Maikel da Maia e de Rimon Guimarães são os mais figurativos, tem um apego à representação; mas o que representam?

A gravura de Maikel da Maia, da série seguro de nada, nos oferece, “dentro” de um homem, objetos, talvez consumidos por ele (pois estão em sua barriga, não em sua cabeça, o que poderia representar um imaginário), que vão de cigarros, TV, carrinho de mão, palavras, etc. Mas os objetos estão apagados, são resquícios de imagens desses objetos sobrepostos uns aos outros. São também, técnica e poeticamente, impressões e regravações numa mesma placa de metal, indicando uma continuidade da existência material desse objeto no qual faz permanecerem todos os desenhos anteriores, feitos em etapas e que geraram, em outros momentos de impressão, trabalhos diferentes a partir da mesma placa, mas que é outra, pois a matriz nunca é a mesma, não tem retorno. Mas se existe a memória também existe o apagamento. A ação de apagamento vai se fazendo presente nesta gravura na qual os objetos/desenhos estão já com a tinta suave, fraca, quase deixando de existir, mas indicando justamente a existência, permanência e acúmulo dos apagamentos.

A pintura de Rimon Guimarães representa sujeitos que são simulacro de outro, que parecem habitá-lo, estão contidos nele. Não é um reflexo, são outros, mas são parte do sujeito maior, que abrange quase o espaço todo do papel e do desenho, com suas (habituais) mãos e braços longos e vários elementos coloridos como se dentro de seu corpo – o que cria relação com o desenho da gravura de Maikel, um sujeito que contém coisas. No caso de Rimon, contém também outros três (ou vários dele mesmo, refletido, simulado) sujeitos, além de um animal.

O conceito de simulacro é importante na pesquisa de Jean Baudrillard sobre a cultura contemporânea, momento em que a reprodução do real acontece em qualquer esfera do sistema, tudo se tornou um simulacro: o mundo do trabalho, o capital, a arte, a política etc. Como concluiu em “simulacros e simulações”: “tudo se metamorfoseia no seu termo inverso para sobreviver na sua forma expurgada. Todos os poderes, todas as instituições falam de si próprios pela negativa, para tentar, por simulação de morte, escapar à sua agonia real” (BAUDRILLARD, 1981).

O inflável de Fernando Rosenbaum recria o espaço, preenchido de vazio, de vento que possui um leve e constante movimento, dilatando-se, crescendo o corpo etéreo e leve, que inexiste, é o contorno do vazio, do ar, do espaço interno ao papel de seda, que o circunda, o define, o faz. No papel de seda, impressões em serigrafia, que resultaram do processo de pesquisa da bolsa produção para artes visuais III, da Fundação Cultural de Curitiba, de colagens feitas nas ruas, e as sobreposições que acontecem nesse espaço público interferido por várias pessoas. O inflável do Fernando engana, cria um novo espaço, próprio, vulnerável, frágil, fino.

O que talvez ligue trabalhos diversos, que se relacionam mais ou menos diretamente a formas de simulacros também distintas, é o caráter de que esses trabalhos enganam, produzem esse efeito, seja pela linguagem que se torna objeto, seja pelo desenho, pelas ações sobre o objeto, ou pelas imagens geradas, fotográficas e videográficas. As formas de distorções, enganações, ausências e, também, apagamentos nos oferecem tais relações com simulacros – mesmo no plural (com braços irregulares e heterogêneos).

27 de agosto de 2011