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sobre espaços

Uma discussão sobre espaços. Esta é a proposta da exposição “sobre espaços”, no espaço tardanza. Muito além do que podemos estabelecer como a distância entre dois corpos, a curadora Deborah Bruel, artista visual e professora de escultura na Escola de Música e Belas Artes do Paraná  (Embap), apresenta obras com “propostas bem diversas. Não é um tipo de espaço, mas conceitos de espaço. Tanto espaço da arte, da obra ou o espaço do mundo.”

Deborah contou que a ideia surgiu porque coordena um grupo de pesquisa, na Embap, “com alguns alunos e ex-alunos, no qual a discussão é espaço e tempo na arte contemporânea, que também tem a ver com minha pesquisa poética. Algumas dessas pessoas que estão aqui expondo, o Juan, a Nana, a Letícia e a Jerusa, fazem parte desse grupo de pesquisa. Este evento é a primeira vez que estou mostrando estas pesquisas juntas.”

Exemplo dessa diversidade de propostas está no trabalho do artista Fabio Noronha, que apresenta duas obras em circulação na internet. Apesar de as obras Aula de desenho e Sharing fazerem parte da exposição, elas circulam por e-mail e dependem do livre compartilhamento entre as pessoas. (Se quiser receber a obra, envie um e-mail solicitando para espacotardanza@gmail.com).

A obra Dédazo, de Letícia Muradás, também não ocupa o espaço tardanza. É um labirinto de portas construído na casa da artista onde o visitante perde a dimensão do espaço, uma vez dentro dele. No tardanza há um vídeo que mostra uma incursão no Dédazo e um flyer com os horários em que pode ser visitado. Deborah explicou que “essa será a última chance, porque depois ela vai desmontar. É um trabalho de site specific temporário e ele nunca mais irá existir naquela configuração.”

Mesmo os trabalhos em exposição no espaço tardanza ocupam-no de uma maneira inusitada, tanto pela apropriação do meio físico como pelos conceitos em discussão. Entrando na primeira sala nos deparamos com um vídeo, uma escultura e uma fotografia emoldurada. Porém, os três trabalhos vão além da primeira impressão, extrapolando suas definições.

As Esculturas Simbióticas de Juan Parada, se é que podemos chamá-las assim, exploram a dualidade e o limite entre conceitos, esse espaço indefinido que foge às nomenclaturas. “Dualidades que são muito claras, essa transição difusa entre arte e design, o objeto funcional e o objeto poético. Há a dualidade do elemento vivo também, do natural e do artificial, além de ter esse questionamento do espaço da obra e o espaço do mundo”, explicou Juan.

Nana Grando apresenta o vídeo <NaN>, também disponível no youtube, em que “trabalha com várias sobreposições, inúmeras camadas. Aqui a discussão do espaço vem desse limite, de criar e sobrepor esses lugares, os sons, sobrepondo também narrativas. Não há uma história com começo, meio e fim. É quase uma pintura de várias coisas.”, explicou a curadora Deborah Bruel.

A terceira obra desta primeira sala, Desvio, “faz parte de uma série apresentada pela primeira vez na exposição do Programa Bolsa Produção IV, em 2010. Uma fotografia que aparentemente parece abrir uma janela na parede. Através da imagem e da moldura, a artista Juliana Gisi chama a atenção para um corredor de hotel praticamente vazio. Porém, a foto estabelece uma função documental e coloca em questionamento esse espaço transitório, o corredor de um hotel, que na maioria do tempo permanece vazio e raramente é lembrado, a não ser por coincidências de encontros corriqueiros. Deborah disse que as fotos foram tiradas em corredores de hotéis na cidade de Porto Alegre.

Na segunda sala, ainda no corredor de acesso, o visitante pode ver uma claraboia aberta no teto, mostrando o céu azul. Trata-se da obra Balde, de Gabriele Gomes, que consiste em um vídeo projetado que mostra um balde vermelho passando pelo céu. A impressão é que o objeto está realmente sobre aquela abertura e pode cair na cabeça de alguém descuidado. O efeito estimula o olhar de quem passa a ficar por um momento parado, vendo a imagem em looping.

Por fim, nos fundos, depois de passar talvez despercebido por outra escultura de Juan, está a obra sutilmente insinuante de Jerusa Costa. Apenas uma placa de vidro sobre um suporte de madeira. Um pequeno detalhe no vidro, uma substância úmida que parece pairar no ar. Jerusa explica que “na verdade a intenção era que ficasse em uma janela, que o suporte fosse o próprio meio físico do espaço expositivo. Não era para ser algo feito especialmente para o trabalho”.

Aproximando o olhar à obra, é possível ver do que realmente se trata e arrematar todo o sentido proposto. Jerusa disse ainda que seus trabalhos são inspirados na reflexão de que “a arte habita o mesmo espaço que a gente, no geral. Não acredito em um espaço idealizado para a arte. A arte também existe dentro destes moldes sim, mas independente desses moldes é possível se encontrar com a arte”.

“sobre espaços” é uma exposição que mostra como espaços alternativos aos consagrados museus e galerias podem abrigar obras com propostas melhores em muitos sentidos. À parte a imparcialidade do jornalismo, recomendo a visita aos trabalhos, inclusive aos que não estão no espaço tardanza.

Marcelo Leite, maio de 2012.

Texto publicado originalmente no site de jornalismo cultural “Curitiba Cultura”: http://www.curitibacultura.com.br/.

Juan Parada. Escultura simbiótica 1. 2010.

Juan Parada. Escultura simbiótica 01. 2010.

 

 

Juan Parada. Escultura simbiótica 02. 2010.

 

 

 

 

Gabriele Gomes. Balde. 2’20”. 2008.

 

 

Juliana Gisi. Desvios. Fotografia e madeira. 2009-2010.

 

 

Letícia Muradas. Dédazo: exposição informativa. 2011.

 

 

Nana Grando. <NaN>. 7’38”. 2011.

 

 

Jerusa Costa. Sem título. Madeira, vidro, acrílico. 2011.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Fotos de Eliana Borges